Authenticae Literae
Tertuliano e o Texto do Novo Testamento
Tertuliano (c. 155–220 d.C.) foi um dos mais importantes escritores da igreja antiga e o primeiro teólogo cristão a produzir um corpo significativo de obras em latim. Natural de Cartago, uma das principais cidades da África romana, escreveu entre o final do séc.II e o início do séc.III, período em que o cristianismo ainda estava consolidando sua identidade intelectual diante do mundo romano e respondendo tanto às críticas pagãs quanto às controvérsias internas da igreja. Sua formação clássica em retórica e direito moldou profundamente seu estilo literário, marcado por argumentação vigorosa e forte caráter polêmico.
A importância histórica de Tertuliano reside sobretudo no fato de ter sido um dos fundadores da teologia latina. Em suas obras aparecem pela primeira vez termos e formulações que se tornariam centrais para a tradição teológica ocidental. Entre eles estão expressões como trinitas para descrever a Trindade e o vocabulário de substantia e persona para explicar a relação entre as pessoas divinas. Sua contribuição ajudou a estabelecer categorias conceituais que seriam desenvolvidas posteriormente por autores como Cipriano, Hilário de Poitiers e Agostinho.
Entre suas obras mais conhecidas estão Apologeticum, uma defesa do cristianismo diante das acusações do império romano; Adversus Praxean, um tratado teológico contra o modalismo; e De Praescriptione Haereticorum, uma obra fundamental para compreender a concepção de autoridade apostólica na igreja primitiva. Escritas em um latim técnico e cuidadosamente elaborado, essas obras exerceram profunda influência na reflexão cristã sobre tradição, autoridade e transmissão da fé, tornando Tertuliano uma figura indispensável para o estudo da teologia e da literatura cristã dos primeiros séculos.
A expressão authenticae litterae aparece na obra De Praescriptione Haereticorum, escrita por Tertuliano por volta do ano 200 d.C. Trata-se de um tratado apologético dirigido contra diversos movimentos considerados heréticos no séc.II, especialmente correntes gnósticas que reivindicavam interpretações alternativas das Escrituras e da tradição cristã. Em vez de responder apenas ponto por ponto às doutrinas desses grupos, Tertuliano propõe uma estratégia argumentativa diferente: questionar se os hereges possuem, de fato, qualquer direito de apelar às Escrituras cristãs.
O argumento central da obra consiste em afirmar que a verdadeira doutrina pertence à igreja que preserva a tradição apostólica. Segundo Tertuliano, essa tradição foi transmitida publicamente desde os apóstolos por meio das comunidades que eles mesmos fundaram. Por essa razão, a interpretação legítima das Escrituras não pode ser separada da continuidade histórica dessas igrejas, nas quais a fé apostólica foi preservada e ensinada de geração em geração.
É nesse contexto que aparece a referência às authenticae litterae. Tertuliano convida seus leitores a recorrer às igrejas apostólicas que, segundo ele, ainda se podem ouvir os escritos apostólicos sendo lidos nas assembleias cristãs. O argumento de Tertuliano é fundamentado em sua convicção de que a continuidade histórica dessas comunidades garante autenticidade da fé que elas preservam.
Assim, a menção às authenticae litterae aparece no contexto de um argumento mais amplo sobre autoridade apostólica e reforça simultaneamente três elementos fundamentais: a autoridade dos apóstolos como origem da doutrina cristã, o uso dos escritos deles nas comunidades que os receberam e a continuidade histórica da fé transmitida nessas igrejas ao longo do tempo.
“Agora, pois, você que deseja exercitar uma curiosidade melhor, se a aplicar ao assunto da sua salvação, percorra as igrejas apostólicas, nas quais as próprias cátedras dos apóstolos ainda ocupam seus lugares; nelas são lidos os ipsae authenticae litterae eorum, que fazem ressoar a voz e representar o rosto de cada um deles. A Acaia está bem perto de você, onde você encontra Corinto. Se não está longe da Macedônia, você tem Filipos; e ali também os tessalonicenses. Se puder ir até a Ásia, encontrará Éfeso. E, além disso, se está próximo da Itália, tem Roma, de onde também chega até nós a própria autoridade dos apóstolos.” - Tertuliano, De praesc. haer. 36.1
Interpretações Conhecidas
Na clássica tradução inglesa da série Ante-Nicene Fathers, Peter Holmes verteu a frase como “their own authentic writings” [lit. os próprios escritos autênticos deles], mas reconheceu em nota de rodapé que a expressão é disputada. Segundo ele, o termo poderia referir-se tanto aos autógrafos apostólicos, aos textos gregos originais ou ainda a cópias completas e não mutiladas. Holmes preferia a segunda opção, mas não está certo disso.
Contudo, embora a leitura originais gregos seja possível, a interpretação mais provável é a de que Tertuliano esteja falando dos autógrafos. O Oxford Latin Dictionary registra authenticus com o sentido de “documento original, autógrafo” (p.220), o que é compatível com o argumento de Tertuliano.2
No final do século II, cópias das cartas paulinas já circulavam amplamente entre as igrejas de língua grega; portanto, não faria sentido convidar alguém a viajar até Corinto, Filipos, Tessalônica, Éfeso ou Roma apenas para consultar cópias confiáveis. O convite faria sentido, porém, se o objetivo fosse examinar os próprios documentos originais, isto é, os authenticae litterae.
Isso é compatível com a visão do próprio Tertuliano. Por exemplo, em Adversus Marcionem 4.5.1 ele refere-se ao depósito sagrado dos apóstolos que procede desde o princípio que está presente nas igrejas dos apóstolos, linguagem que sugere a preservação escrita do testemunho apostólico. Além disso, é também compatível com o uso de authenticus na literatura patrística latina como referência ao autógrafo.3 Mas, como esperado, existem perspectivas alternativas.
Como se sabe, nos nossos dias existem pelo menos quatro visões principais sobre a interpretação da expressão latina authenticae litterae usada por Tertuliano:
Autógrafos apostólicos (em contraste à cópias): Essa opinião é defendida por diversos autores conservadores e representa o parecer que apresentei no slide anterior.4
Textos gregos originais (em contraste com traduções latinas): Como Tertuliano escreve em latim e usa manuscrito latinos do NT em seus escritos, ele estaria se referindo aos manuscritos gregos das igrejas fundadas por apóstolos.5
Cópias não mutiladas (em oposição às versões alteradas utilizadas por hereges): Como as igreja de fala grega haviam recebido muito cedo cópias do texto apostólico, e que elas poderiam ser encontradas por todos os lados, é possível que a expressão faça referência à cópias não corrompidas dos textos apostólicos.6
Argumento Apologético: Como os autógrafos teriam desaparecido muito cedo, a frase de Tertuliano não pode significar literalmente os autógrafos. Ao que parece, ele está forçando um argumento retórico que não corresponde a realidade histórica.7
Uma nova interpretação
Em um recente debate na internet,8 Fábio Sabino apresentou mais uma alternativa às quatro já conhecidas. De acordo com ele, Tertuliano não poderia falar sobre o manuscrito original por quatro razões principais:
Timothy Barnes teria demonstrado que o vocabulário de Tertuliano poderia indicar um texto oficial, mas não o autógrafo;9
Bruce Metzger teria afirmado que a expressão não poderia ser usada como prova histórica da existência de material apostólico no final do séc.II;10
George Lampe teria sugerido que o termo grego que influência o latim significa autorizado ou genuíno sem implicar manuscrito autógrafo.11
No contexto da citação existe uma completa ausência de qualquer descrição material dos supostos documentos;
Como Tertuliano não menciona suporte (papiro, pergaminho), formato (rolo ou códice), estado de conservação, sistema de escrita ou qualquer elemento codicológico que permita identificar fisicamente um manuscrito específico. Ele cita Harry Gamble como suporte para essa afirmação;12
Uma afirmação de preservação de autógrafos exigiria pelo menos algum indício empírico de acesso direto ao artefato, e nada disso aparece no texto. Ele cita Eldon J. Epp como suporte para essa conclusão;13
O problema é a inexistência de distinção técnica entre apographon (cópia) e autographon (original escrito pelo autor). Ele afirma ter suporte para isso na obra de Metzger-Ehrman.14
Para o estudante iniciante o argumento apresentado parece persuasivo, especialmente por ser organizado e bem fundamentado por especialistas.
A partir desse conjunto de argumentos, Sabino conclui que a expressão authenticae literae não se refere a autógrafos preservados, mas a escritos reconhecidos como legítimos pela tradição eclesiástica, de modo que o apelo de Tertuliano deveria ser entendido em termos exclusivamente eclesiológicos, e não paleográficos.
Problemas da interpretação
Ainda que essa interpretação apresente diversas dificuldades, o ponto realmente problemático está no apelo à autoridade de especialistas como Barnes, Metzger, Lampe, Gamble, Epp e Metzger-Ehrman para fundamentá-la. Mas, pasmem! Nenhum dos livros e artigos citados oferecem suporte para sua conclusão.
Por exemplo, nas páginas citadas por Sabino, Timothy Barnes está simplesmente descrevendo a posição de Tertuliano em relação ao gnosticismo, recorrendo a passagens de De Praesc. Haer. Em nenhum momento, porém, ele menciona a expressão ou faz qualquer referência ao problema interpretativo em questão. Mais significativo ainda é que, mesmo quando Barnes trata do cp.36 dessa obra, ele não cita nem discute a expressão. Em outras palavras, o autor é apresentado como autoridade para sustentar uma interpretação sobre um texto que ele sequer comenta.15
O problema torna-se ainda mais sério no caso da citação do livro de Bruce Metzger. Nas páginas indicadas por Sabino, Metzger simplesmente não trata do assunto. Na verdade, ele está descrevendo as mais antigas listas de livros do Novo Testamento, começando com o Cânon Muratoriano. Nessas páginas, Tertuliano sequer é mencionado.
A situação torna-se ainda mais problemática quando se observa o que Metzger realmente afirma na introdução da obra. Ao explicar a autoridade das epístolas apostólicas nas igrejas primitivas, ele observa que era natural que esses escritos fossem “apreciados e lidos vez após vez pelas congregações que primeiro os receberam, bem como por outros que vieram a apreciar as cópias desse estimado testemunho do período apostólico.” Nesse contexto, Metzger acrescenta que, ocasionalmente, pais da igreja afirmavam a preservação dos autógrafos apostólicos. Como exemplo, ele cita Tertuliano (De Praescriptione Haereticorum 36), mencionando “Tessalônica entre as cidades às quais as epístolas apostólicas haviam sido enviadas e nas quais ainda eram lidas a partir dos autógrafos.”16
Em outras palavras, o especialista citado por Sabino não apenas deixa de oferecer qualquer apoio à conclusão proposta, como no único momento em que de fato menciona Tertuliano, Metzger apresenta uma interpretação que aponta justamente na direção contrária a apresentada por Sabino.
No caso de Lampe, eu fico impressionado com a coragem que o Sabino tem distorcer o que está escrito. De acordo com ele, Lambe teria dito que authenticus pode significar “autorizado/genuíno sem implicar manuscrito autógrafo.”
Mas isso é simplesmente incorreto. Em primeiro lugar, Sabino afirma que o verbete grego αὐθεντικός se encontra na página 274 do léxico de Lampe, o que não corresponde aos dados da obra. O verbete aparece, na verdade, na página 263, onde estão reunidos os principais usos do termo na literatura patrística.
Em segundo lugar, Lampe distingue cuidadosamente os diferentes sentidos da palavra quando aplicada a documentos, mostrando que ela pode designar tanto: (a) um autógrafo, isto é, um texto escrito pela própria mão do autor; (b) o documento original, em contraste com uma transcrição ou cópia; ou (c) uma cópia autêntica, reconhecida como fiel ao original.17 Em outras palavras, ao contrário do que Sabino sugere, o próprio Lampe reconhece que αὐθεντικός pode ser empregado para descrever um documento autógrafo ou original.
Mais problemático ainda é a tentativa de insinuar que o uso do termo grego αὐθεντικός teria alguma influência determinante sobre o sentido do latino authenticus, de modo a afetar a interpretação da expressão empregada por Tertuliano. Mesmo que αὐθεντικός nunca fosse usado para designar um documento original, isso nada provaria no caso de Tertuliano, que escreve em latim e utiliza um vocabulário latino com sua própria história semântica. Trata-se de um princípio básico de análise léxica: o significado de um termo latino deve ser estabelecido a partir do uso latino do vocábulo, não por meio de um léxico grego que descreve outro campo semântico e corpo literário.
A impressão que fica é que a citação do léxico grego serve apenas para conferir uma aparência de erudição ao argumento, por meio da invocação de uma autoridade que, na realidade, não sustenta a conclusão proposta.
Agora que o padrão de abuso de fontes secundárias ficou evidente, não é nenhuma surpresa que o mesmo tenha acontecido com a obra de Harry Gamble. De acordo com Sabino, Gamble parece defender que Tertuliano não se refere ao documento original por não mencionar se o mesmo havia sido produzido como papiro ou pergaminho, em rolo ou códice ou qualquer outra referência que permitisse a identificação física desse manuscrito. Essa conclusão é incorreta por duas razões principais.
Em primeiro lugar, Sabino referência as páginas 43-52 que tratam, de modo geral, da produção do livros no período grego-romano. Nesse contexto, Gamble fala sobre as características físicas de documentos (rolo ou códice), menciona a produção e uso do papiro e pergaminho como meios de escrita, mas o caso de Tertuliano é sequer mencionado.18 Aliás, em todo o livro Gamble lida com a frase authenticae litterae!
Em segundo lugar, o autor não oferece nenhum indicativo de que existe qualquer diferença entre a produção do autógrafo e de suas cópias. As características apresentadas descrevem livros originais e suas cópias. Ou seja, o argumento não faz diferença nenhuma! Tanto o original, como suas cópias, teriam características codicológicas. A menção (ou sua ausência) não fazem a menor diferença para a interpretação de authenticae litterae. Afinal, se Tertuliano desse todas as informações codicológicas do documento que Tertuliano se refere, isso não provaria que ele teria visto o original nem uma cópia.
A bem da verdade, a menção de Gamble nesse contexto segue o mesmo padrão das citações anteriores: é apenas uma tentativa de aparentar erudição.
O mesmo acontece com o uso do artigo de Eldon J. Epp. De acordo com Sabino, o artigo desse autor é o fundamento de sua proposição: “uma afirmação de preservação de autógrafos exigiria pelo menos algum indício empírico de acesso direto ao artefato, e nada disso aparece no texto.” Como já vimos, esse argumento não se sustenta. Mais uma vez, porém, o problema é que o artigo de Epp não faz qualquer afirmação desse tipo.
O artigo é fundamental para se compreender o conceito de texto original no contexto da crítica textual, e seus diferentes usos na disciplina. Os quatro usos apresentados por Epp não mencionam, nem uma vez, o aspecto físico do documento original para se identificar o texto original. A questão do artefato original não é importante para Epp. Referenciar uma conclusão equivocada em um autor que não a defende reforça o padrão de abuso de fontes secundárias no argumento de Sabino.
Por fim, temos o caso de Metzger e Ehrman, citados como suporte para a afirmação de que a “inexistência de uma distinção técnica entre apographon (cópia) e autographon (original escrito pela própria mão do autor)” reforçaria a tese de Sabino de que Tertuliano não estaria se referindo ao documento original.
Mais uma vez, porém, a referência não sustenta o argumento apresentado. Nas páginas citadas por Sabino (pp. 15–18), Metzger e Ehrman estão simplesmente descrevendo as formas físicas dos livros na Antiguidade e a transição entre rolos e códices. Nada do que afirmam nessa seção oferece qualquer suporte à interpretação proposta.
Além disso, os autores não discutem em nenhum momento nessa obra a suposta distinção técnica entre αὐτόγραφον e ἀπόγραφον, nem utilizam essa distinção como base para interpretar o vocabulário patrístico. Em outras palavras, a obra é citada como se tratasse de um ponto que, na realidade, não aparece no texto.
Conclusão
Eu não costumo acompanhar debates teológicos na internet por diversas razões. Em geral, não os considero um ambiente particularmente útil para o aprendizado sério das Escrituras ou da Teologia Cristã. Muitas vezes, eles se parecem mais como rinhas de combate do que propriamente um debate teológico. Além disso, a quantidade de informações equivocadas, imprecisas ou mal verificadas que circula nesse contexto costuma ser alta demais para que o resultado seja realmente proveitoso.
No caso específico deste post, todos os exemplos que apresentei até aqui aparecem em aproximadamente cinco minutos de fala do Fábio Sabino. Nesse curto trecho, há tantas referências incorretas ou mal atribuídas que se torna difícil acompanhar o restante da discussão. Por essa razão, confesso que não consegui continuar assistindo ao debate. Apesar de serem muitos expectadores desse tipo de debate, para mim está claro que sua popularidade é inversamente proporcional a sua utilidade.
Mas, nem tudo está perdido. Acredito que ainda assim podemos aprender algo. Assim apresento algumas considerações com a intenção de extrair algum proveito de um trecho deste debate:
Seja cético com conteúdo da internet: Independentemente de quem seja o interlocutor (incluindo eu mesmo), mantenha um nível saudável de ceticismo e esteja disposto a investigar o que está sendo afirmado e quais fontes estão sendo utilizadas. Ouça ou assista aos argumentos não apenas para concordar ou discordar, mas sobretudo para aprender a discernir o que é verdadeiro;
Abra os livros nas páginas citadas: Não aceite notas de rodapé como prova. Visite os livros citados e verifique se estão de fato lidando com o assunto. A maioria dos livros citados nesse post estão disponíveis para empréstimo na biblioteca do Internet Archive.
Cuidado com os autoproclamados “eruditos”: Na internet é comum encontrar pessoas que se apresentam como especialistas ou peritos em determinado assunto sem possuir a formação ou a experiência acadêmica que normalmente sustenta esse tipo de autoridade. O número de seguidores não transforma alguém em referência intelectual. Popularidade digital e competência acadêmica são coisas diferentes. Em muitos casos, estudiosos que de fato trabalham com pesquisa dedicam a maior parte do seu tempo à leitura de material técnico, ao ensino de seus alunos e à produção de pesquisas para sua área. Por essa razão, raramente estão envolvidos de modo recorrente em debates online. Já quem depende de visibilidade para promover cursos ou produtos frequentemente precisa construir uma imagem de autoridade para sustentar sua presença nessas plataformas. Por isso, é sempre prudente avaliar com cuidado as credenciais reais, as fontes citadas e a qualidade de fato dos argumentos apresentados.
Aprenda a identificar a falsa erudição: Um dos recursos mais persuasivos em debates online é o uso de citações, nomes de especialistas e vocabulário técnico para transmitir segurança ao público. Mas erudição verdadeira não está em citar muito; está em citar corretamente, interpretar com cuidado e representar com honestidade aquilo que os autores realmente disseram. Quando uma fonte é usada para defender o que ela mesma não afirma, o problema já não é apenas uma falha do argumento, mas falta de integridade no uso da evidência. No contexto do estudo sério, a integridade é necessária, mas no contexto da Teologia Cristã ela é essencial. Não dá pra falar sobre verdade sem integridade. Existem opiniões diferentes das nossas, e nossas opiniões tem pontos fracos e fortes. Um verdadeiro especialista sabe disso e, justamente por isso, procura tratar suas próprias posições e as posições contrárias com honestidade intelectual.
Material acadêmico se faz na academia: Não aceite que um material ou conclusão seja “acadêmico” simplesmente porque quem o apresenta afirma que é. Na prática, grande parte do conteúdo produzido para debates online ou outras plataformas digitais é, no máximo, informal ou introdutório. Muitas vezes são pessoas que leem bastante, aprendem rápido e sabem comunicar ideias com clareza. Isso pode ser útil em certos contextos, mas não transforma automaticamente alguém em especialista na área sobre a qual está falando. A produção acadêmica possui um ambiente próprio. É nas universidades, centros de pesquisa e instituições acadêmicas que especialistas trabalham diretamente com as fontes primárias, desenvolvem métodos de investigação, discutem resultados com outros pesquisadores e submetem suas conclusões ao escrutínio de pares. Esse ambiente cria processos de verificação, correção e refinamento que são essenciais para a produção de conhecimento confiável. Por essa razão, quando se trata de temas técnicos ou especializados, é sempre importante perguntar se o material apresentado realmente dialoga com esse ambiente acadêmico ou apenas reivindica essa autoridade.
Se algo positivo pode ser extraído de um episódio como este, talvez seja um convite à responsabilidade intelectual. A teologia cristã sempre foi construída com atenção cuidadosa às fontes, leitura paciente e diálogo sério com aqueles que vieram antes de nós. O estudo das Escrituras e da tradição cristã exige mais do que opiniões rápidas ou disputas retóricas; exige disciplina, honestidade intelectual e respeito pelas evidências. Por isso, mais importante do que vencer um debate é aprender a ler melhor, investigar com cuidado e cultivar um compromisso genuíno com a verdade.
“The Prescription against Heretics,” in Latin Christianity: Its Founder, Tertullian, ed. Alexander Roberts, James Donaldson, and A. Cleveland Coxe, trans. Peter Holmes, vol. 3, The Ante-Nicene Fathers (Buffalo, NY: Christian Literature Company, 1885), 260.
Oxford Latin Dictionary, ed. P. G. W. Glare (Oxford: Clarendon Press, 1982), 220. Veja também: Charlton T. Lewis and Charles Short, Harpers’ Latin Dictionary (New York; Oxford: Harper & Brothers; Clarendon Press, 1891), 212.
2 Alexander Souter, A Glossary of Later Latin to 600 A.D. (Oxford: Clarendon Press, 1957), 26. Ver também: Leo F. Stelten, Dictionary of Ecclesiastical Latin (Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 1995), 45.
Craig A. Evans, “Longevity of Late Antique Autographs and First Copies: A Postscriptum,” in Scribes and Their Remains, ed. Craig A. Evans and Jeremiah J. Johnston, vol. 21, Studies in Scripture in Early Judaism and Christianity (London; New York; Oxford; New Delhi; Sydney: T&T Clark, 2020), 17-25.
Peter Holmes, “The Prescription against Heretics,” in Latin Christianity: Its Founder, Tertullian, ed. Alexander Roberts, James Donaldson, and A. Cleveland Coxe, vol. 3, The Ante-Nicene Fathers (Buffalo, NY: Christian Literature Company, 1885), 260.
Charles Hodge, “On Origen, the Father of the Grammatical Interpretation of the Scriptures,” Biblical Repertory: A Collection of Tracts in Biblical Literature III, no. 1–4 (1827): 256–257.
Frederick Henry Ambrose Scrivener. A Plain Introduction to the Criticism of the New Testament. 4th ed. Edited by Edward Miller. Vol. 2. London: George Bell & Sons; Cambridge: Deighton Bell & Co., 1894, 257–259.
O debate pode ser visto nesse link. A apresentação de Fábio Sabino inicia em 19:29 e termina 25:27.
Timothy D. Barnes, Tertullian: A Historical and Literary Study (Oxford: Clarendon Press, 1971), 117–20.
Bruce M. Metzger, The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance (Oxford: Clarendon Press, 1987), 191–92.
G. W. H. Lampe, A Patristic Greek Lexicon (Oxford: Clarendon Press, 1961), 274.
Harry Y. Gamble, Books and Readers in the Early Church: A History of Early Christian Texts (New Haven: Yale University Press, 1995), 43–52.
Eldon J. Epp, “The Multivalence of the Term ‘Original Text’ in New Testament Textual Criticism,” Harvard Theological Review 92(3) (1999): 245–81.
Bruce M. Metzger and Bart D. Ehrman, The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration, 4th ed. (Oxford: Oxford University Press, 2005), 15–18.
Barnes, Tertullian, pp. 65-67; ver também p. 252.
Metzger, The Canon of the New Testament, pp. 4-5.
Lampe, A Patristic Greek Lexicon, p. 263.
Para ver a seção onde o autor lida com Tertuliano, veja: Gamble, Books and Readers in the Early Church, pp. 118-21.




Por incrível que pareça, eu tinha acabado de assistir à live do Prof. M. Rangel com Sabino. E nada tirava da minha cabeça que Sabino estava distorcendo as fontes apresentadas para favorecer a sua conclusão. E o mais incrível: logo que terminei de assistir, abri o Substack e vi seu texto, Pr. Marcelo. Glória a Deus pela sua vida e por sua contribuição a esse assunto.
Excelente texto, Pr. Marcelo!